Era noite. O tempo era frio e chovia lá fora. Ela, sentada no chão da sala húmida e escura de sua casa, estava meio perdida sabendo apenas que se encontrava entre as quatro paredes da casa que sabiam os seus mais profundos desejos, pensamentos e segredos. Não sabia à quanto tempo estava ali, podia ser à segundos, minutos, horas, sinceramente, desconhecia o passar do tempo, pois pouco lhe importava. Agora, os primeiros raios de luz começaram a aparecer e o tempo parecia ter melhorado, no entanto, ela continuava ali, sentado no chão frio, perdida entre a realidade e a ficção da sua vida. Já tentara encontrar-se e perceber o paradoxo entre o que agora vivia, mas não tinha conseguido, cada vez que tentava perceber um pouco mais, mais uma dúvida se apoderava da sua mente, mente essa que em tempos tinha sido bastante clara. Agora, pouco ou nada, parecia claro, tudo se encontrava num tom meio acinzentado e esfumado e a única diferença esporádica que ocorria quando mudava de tom, só acontecia quando se encontrava a dormir e finalmente tinha um pouco de paz entre os minutos em que ora acordava sobressaltada, ora sonhava com momentos de pânico, terror, medo e revolta. Com tudo, e apesar de o nevoeiro ser o que mais se assemelhava ao seu estado de vida na altura, estava neste momento sol, um sol brilhante demais para aquele dia de Dezembro em que se adivinhava um frio imenso. Devia ser meio-dia, porque o telemóvel despertava a poucos passos do sítio onde se encontrava aninhada, para a lembrar que tinha de acordar, era quase hora de almoço, e como em todos os outros dias, ia ter de parecer no mínimo, normal, perante o olhar incrédulo dos pais e avós a sua indiferença demonstrada no almoço, perante o olhar surpreendido das amigas quando não ria e contava as suas habituais graças de sexta-feira à tarde. Ia ter de parecer o mais normal possível, e acordar, tomar um banho, vestir-se, sorrir. Embora a sua maior vontade, fosse a de ficar na cama, aninhada como uma pequena cria, um bebé e esperar que a viessem acarinhar, reconfortar com um abraço, animar com um sorriso, com um beijo na testa. Sabendo que a impossibilidade de tal momento era evidente, levantou-se então do chão onde tinha passado toda aquela noite e início de dia, do chão onde tinha dormido apesar do frio, da dor, da revolta, o chão onde tinha sentido o bater do seu coração à medida que as horas passavam e ia acordando depois dos pequenos pesadelos que agora já eram habituais. Ao levantar-se, sentiu uma leve mudança no interior da divisão, como se todo aquele espaço, agora visto do seu metro e cinquenta e oito, pudesse ter mudado numa simples e fria noite de Dezembro e se tivesse transformado em algo mais do que uma divisão. Sentiu também ela uma mudança, uma mudança agradável, como se o sonambulismo em que tinha passado a noite, lhe tivesse dado força, força para erguer a cabeça, força para lutar, força para viver, e passar do cinzento, da névoa, ao verde, laranja, azul, como se passasse da névoa ao Sol, como se de um dia de Agosto se tratasse. E aí, começou um novo rumo, uma nova história, uma nova pessoa forte e determinada, e mesmo apesar de ser estranho, e de ainda lhe parecer tudo meio turvo, ela sorriu. Sorriu como não sorria há muito tempo, sorriu como se de uma criança pequena se tratasse. Apenas sorriu.

segui também e votei na sondagem :)
ResponderEliminarObrigado. :')
ResponderEliminarobrigada linda, e sigo (;
ResponderEliminarhttp://emformadesaudade.blogspot.com/
Obrigado eu, :')
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